“O que nós fazemos não vai mudar o mundo”

Eles podem ser uma das maiores bandas do planeta, mas os pés do Foo Fighters estão firmemente cravados ao solo. Eis o motivo…

  Hoje, Dave Grohl vem em apenas uma cor: preto. Ele se jogou em um sofá numa quarto espaçoso no prestigioso Covent Garden Hotel, em Londres, vestindo jeans preto, tênis preto e camiseta preta. Ele está coberto por longos cabelos pretos e uma vasta barba preta, que passa quase 2,5cm a partir do queixo. Ao redor dos olhos é possível notar algumas rugas novas, os primeiros sinais sobre sua aparência que sugerem a proximidade com os 40 anos.

  Faz pouco mais de 24 horas que ele chegou ao país, e dentro das primeiras três horas após desembarcar do avião, ele já foi se atirou a uma série de entrevistas. É algo que pode explicar o porquê de, hoje, ele estar de ressaca. Após concluir suas obrigações promocionais no dia anterior, ele passou a maior parte de seu tempo dentro dos batidos clubes de rock de Londres onde, de acordo com seus resmungos iniciais nesta manhã, ele estava “bebendo umas malditas Jager Bombs.” Ele fecha brevemente os olhos e suspira novamente enquanto esfrega a lateral da própria cabeça. “Ah”, ele se lembra dolorosamente, “Eu também bebi doses de gin. Gin? Porra.”

  Dave Grohl xinga demais. “Porra” é mais pontuado do que maldições em sua fala. Ele também grita bastante. Não de forma agressiva, mas de forma entusiasmada quando ele concorda com alguém ou quer enfatizar uma opinião. Isso só contribui para sua imagem de alguém que adora estar em bando, um homem animadamente amigável que adora fazer com que os outros se sintam confortáveis. “É muito bom quando as pessoas gostam de você,” ele admite.

   Ele também é muito aberto quando o assunto é sobre sua vida – fica feliz em conversar sobre o nascimento de sua filha, em abril do ano passado – ao invés de permanecer suspeitamente resguardado como as maiorias das estrelas de seu calibre costumam ficar.

  “Ei, você gostaria de ver uma foto da Violet na praia?” ele pergunta, puxando o celular do bolso minutos após se sentar. “He, he, he!” ele ri, “Ela está vestindo um biquíni! Ela tinha acabado de passar pela consulta que fazemos ao completar 14 meses de vida. Eles disseram que ela pode chegar a medir 1,70 metros de altura, ter o rosto da Jordyn [esposa do Dave] e minha loucura. Isso não é irado?”

  Sentado à direita do líder, recostado em uma cadeira, está o guitarrista de cabelos descoloridos Chris Shiflett. Parece que ela acabou de tomar banho, com olhos brilhantes e alerta. Ele chegou ao país algumas horas após a noite Grohliana mas, como alguém que não bebe, ele passou a noite descansando em seu quarto de hotel.

  Oposto a ele está o baixista Nate Mendel, segurando um copo com sal de frutas para a ressaca, o que pode explicar seu quieto, porém suave comportamento nas próximas horas.

  Escondido por detrás de sua orelha direita, existe uma cicatriz em forma de S – resultado de uma cirurgia cerebral por qual ele passou semanas antes do início da demonstração do novo álbum da banda Echoes, Silence, Patience & Grace.

  “Eu tive um buraco perfurado na minha cabeça devido a uma dor incomoda que me acompanhou por 10 anos por causa de um problema neurológico. 10 anos de dores de cabeça minutos antes de subir ao palco para tocar rock em altos volumes foram muito divertidos,” ele comenta. “Por sorte, a dor não existe mais.”

  “Sério? A dor se foi?” Grohl grita. “Ainda bem! Eu estava preocupado quando começamos a compor as demos. Eu pensava: E se o Nate não conseguir mais tocar baixo? E se os médicos ligarem os fiozinhos errados?”

  Mendel também exibe uma barba, apesar de ser menor que a do Dave.  O resquício de uma competição para ver quem deixava a barba maior entre ele, o líder e o baterista Taylor Hawkins – atualmente em algum lugar sobre o Atlântico após ter sido o escolhido para perder esta entrevista em terra – durante a gravação do Echoes… Só para constar, a barba do Mendel foi a que mais cresceu e o contraste de sua espessa barba com seu cabelo raspado fez parecer que sua cabeça, de acordo com um divertido Dave, “está de cabeça para baixo!”

  “Uma menininha de quatro anos me chamou a atenção,” ri Mendel.

  “Ela era bem precoce e falou como uma adulta. Ela veio diretamente em minha direção e disse, ‘Essa barba não é bonita’. Assustou-me bastante”

  Deixando as barbas de lado, Echoes… é um disco que marca uma mudança radical no mundo do Foo Fighters. Nos últimos 6 anos, a banda esteve em um considerável estado de fluxo.  Mesmo com as afirmações dadas por Dave de que ele havia estabelecido sua banda como uma, “banda de rock composta de quatro partes com o significado de entrar no estúdio e gravar discos de rock’n’roll,” houve um tempo, pouco antes do lançamento do álbum One By One, em que o Dave estava cansado do Foo Fighters. Ele disse que precisava encontrar “algo maior que servisse como estímulo.” Ele quase se uniu ao Queens of the Stone Age, mas resolveu dar uma última chance ao Foo.

  O álbum resultante foi o In Your Honour, disco duplo lançado em 2005 – com uma metade de rock e a outra metade acústica – foi o ponto decisivo. Gravado no novíssimo estúdio construído em LA (Studio 606), foi o disco que provou que os Foos e o Dave eram capazes de fazer algo diferente, e ainda assim, manter a mesma segurança da série de músicas de rock – que agradassem às rádios e aos fãs – do primeiro disco. Porém, agora, o Foo Fighters quer se diferenciar novamente. Agora eles querem empurrar ainda mais as fronteiras. Sem a rede de segurança.

ECHOS, SILENCE, PATIENCE & GRACE SOA COMO UM ÁLBUM INSTINTIVO, COMO SE VOCÊS NÃO TIVESSEM PENSADO MUITO, COMO SE VOCÊS SÓ TIVESSEM CHEGADO E TOCADO.
DAVE GROHL: “O processo de gravação do In Your Honour realmente nos pôs em forma. A construção do estúdio, depois a execução das turnês do lado rock, depois do lado acústico, separadamente, fez de nós uma banda melhor. Nos últimos dois anos, esta banda se transformou imensamente – nos tornamos músicos melhores, autores melhores. Foi inspirador ir lá para fora e fazer todas essas coisas, depois perceber que nós éramos capazes de fazer coisas que nunca havíamos imaginado. O medo já não existe mais.”

ANTES DO IN YOUR HONOUR, VOCÊS ESTAVAM INSEGUROS DE QUAL SERIA O PRÓXIMO PASSO?
GROHL: “Até um certo ponto. A ideia do álbum era a de fazer com que as possibilidades se tornassem infinitas. Nós queríamos ser capazes de fazer tudo o que era possível sob o guarda-chuva desta banda, queríamos ampliar nosso horizonte até que pudéssemos escrever livremente. Mas, no fim, tornou as coisas mais difíceis. Para este álbum, nós estávamos escrevendo músicas que variavam tanto – tínhamos músicas que soavam como o Motörhead em início de carreira, tínhamos músicas country, músicas com piano, músicas somente com cordas. Em alguns momentos, tudo ficou confuso pois não sabíamos que tipo de álbum estávamos produzindo até terminá-lo.”

VOCÊS DECIDIRAM SAIR DA ZONA DE CONFORTO E PENSARAM, “O QUE FAREMOS AGORA?”

GROHL: “Sim. Nós passamos nossas vidas recebendo nosso itinerário por baixo da porta, por isso, nos acostumamos a uma rotina. Já sabíamos o que esperar. Mas, com esse álbum, musicalmente, eu não fazia nenhuma ideia do que esperar.”

PARECE UM MÉTODO COMPLETAMENTE DIFERENTE DE TRABALHO…
GROHL: “A turnê acústica mudou muita coisa para mim. A principal foi que eu percebi que estávamos criando músicas que valiam a pena serem ouvidas, ao invés de músicas feitas para você esmurrar o cara sentado ao seu lado. Eu olhava para as pessoas e elas estavam ali, sentadas, somente ouvindo. Para mim, agora, a parte mais importante de uma música é a letra. Nós escrevemos várias música, mas as que se destacaram foram aquelas que tinham alguma coisa para dizer.”

NO PRIMEIRO ÁLBUM, VOCÊ PARECIA DETERMINADO A NÃO TER OPINIÃO ALGUMA. TALVEZ, EM REAÇÃO A MORTE DO KURT COBAIN.  POR EXEMPLO, ESSAS LETRAS – SOBRE UNHAS E MEDICAMENTO PARA ACNES – NÃO FAZIAM SENTIDO NENHUM.
GROHL: “Absolutamente. Eu não queria dizer nada com o primeiro álbum. Eu estava, deliberadamente, tentando não dizer nada, para impedir que eu dissesse alguma coisa. Eu temia que as pessoas tentassem ler as entrelinhas do que eu quisesse dizer. Mas, agora, dizer algo é muito importante para mim.”

O QUE MUDOU? POR QUE A NECESSIDADE DE TER UMA OPINIÃO AGORA?
GROHL: “Acho que eu finalmente entendi a importância que isso tem. Eu tenho fé em nós musicalmente e melodiosamente falando e, mesmo sendo um desafio, já não é mais um empecilho. Eu quero escrever coisas que tragam conexão. As músicas com as quais as pessoas se conectam são as que são cantadas mais alto. Isso é importante para mim. Eu quero ter uma conexão com a multidão diante de nós. Ouví-los cantar Times Like These ou Best of You como se fossem a porra de um coral é a melhor coisa do mundo.”

É COMUM VOCÊ ESCONDER SEUS SENTIMENTOS PESSOAIS DENTRO DE SUAS MÚSICAS. VOCÊ ESTÁ MAIS DISPOSTO EM SE ABRIR E TIRAR AS COISAS DO SEU PEITO AGORA?
GROHL: “Absolutamente. É uma sensação boa a de poder dizer coisas em uma música que eu, não necessariamente, poderia dizer na cara de alguém. Escrever as letras num curto período de tempo, como eu fiz neste álbum, foi como remover muito peso do meu coração rapidamente. E também, qualquer um que seja pai é capaz de compreender como o mundo se transforma após o nascimento de um filho. Eu sinto e percebo as coisas de forma diferente agora. Eu não sinto mais medo pois não existe nada mais importante do que minha filha. Eu já não temo fazer mais nada pois, agora, o quadro maior brilha muito mais.”

FOI ASSIM QUE A MÚSICA QUE ENCERRA O ÁLBUM – HOME – SURGIU? PARECE QUE A LETRA FALA SOBRE VOCÊ QUERER ESTAR COM SUA FAMÍLIA E, É A MÚSICA MAIS PROFUNDA JÁ PRODUZIDA PELO FOO FIGHTERS.
GROHL: “Essa música me fez sentir muito vulnerável enquanto a escrevia. Eu fiquei bem sensível ao pensar em todo o tempo em que fiquei longe daquilo que realmente me importava. É duro estar longe, é duro falar em como que queria estar perto da minha família. No entanto, esses são os momentos que você busca na hora de compor um álbum. Você quer capturar sentimentos reais ao invés de fazer música para ficar tocando de fundo no seu aparelho de som. Você quer encontrar um caminho para o coração de quem estiver ouvindo.”

HOME E OUTRA MÚSICA DO ÁLBUM ECHOES, STRANGER THINGS HAVE HAPPENED, SUGEREM QUE VOCÊ ESTÁ CANSADO DO QUE VEM JUNTO COM AS TURNÊS. ISSO É VERDADE?
GROHL: “Bem, eu não tenho muito do que reclamar. Eu entendo que tenho muito sorte em poder fazer essas coisas, mesmo sendo um dia seguido do outro. Mas, a vida é mais do que apenas se sentar aqui no Covent Garden Hotel, ou falar sobre gravações em fita, ou estar na capa de uma revista. Então, sim. Existem momentos em que a monotonia te faz sentir insignificante.”

ISSO É RESULTADO DE FAZEREM AS MESMAS PERGUNTAS EM TODAS AS ENTREVISTAS DE SEGUIDAS VEZES?
GROHL: “Eu tento ver as coisas desta forma: Nós vamos falar sobre música o dia todo, seja ela gravada em fita ou não. Não é uma vida realmente ruim.”

É uma vida que levou o Foo Fighters dos programas de curiosidade para as ligas dominante das bandas de rock. Era, inicialmente, um projeto solo do Dave que ele usou para lidar com a perda da sua banda anterior, Nirvana.  No ano passado eles tocaram para quase 85 mil pessoas em Hyde Park. Foi um grande show que, talvez, o Dave Grohl de 13 anos atrás se recusaria a fazer. Portanto, ao ter sua vida transformada num zoológico pela mídia e indústria musical enquanto fazia parte do Nirvana, fez com que ele determinasse que o Foo Fighters fosse um projeto pequeno. Tanto, que ele nem ao menos cogitou por seu nome no primeiro álbum. Dezenas de milhares de álbuns vendidos mais tarde ele se senta em um sofá exagerado, num hotel chique e reflete sobre sua reinvenção como líder e na não tão desejada ascensão a uma das maiores estrelas do rock.

LEVANDO EM CONSIDERÇÃO DE QUE ESSA É UMA BANDA QUE SURGIU DE UM PROJETO PARALELO, VOCÊ JÁ SE PREOCUPOU COM A PROPORÇÃO QUE ELA TOMOU?
GROHL: “Houve algumas vezes. Eu estava preparando comida e churrasco no backstage antes do show em Hyde Park. Eu me lembro de que pensei, ‘Certo, temos 85 mil pessoas aqui. O Motörhead está tocando como nossa banda de apoio e nós somos os responsáveis por tudo.’ Nós preparamos tudo – checamos as luzes, o equipamento, tudo. Nós estávamos com 1.100 empregados nesse dia. E tudo por causa dessa fita demo que eu gravei por diversão há uns 13 anos atrás. Em dado momento, eu pensei, ‘Como, raios, nós chegamos aqui?’ Mas isso é passageiro. Logo passa.”

VOCÊ JÁ SE PREOCUPOU COM O FATO DE AS PESSOAS PERDEREM O INTERESSE EM VOCÊS?
GROHL: “Isso não me preocupa muito. Acho que já conseguimos concluir mais do que jamais sonhamos. Se terminasse hoje, eu diria que foi uma trajetória incrível.”

ENTÃO, SE ESSE NOVO ÁLBUM FOSSE UM FRACASSO, PARA VOCÊ ESTARIA TUDO BEM?
GROHL: “A gente sempre espera que muitas pessoas comprem a nossa música, que apreciem no que fizemos e venham ao nosso show mas…”
NATE MENDEL: “…se eles não vierem, nós vamos continuar voltando até que eles venham. Mas sim, é claro que seria desapontador. Se lançamos um disco e um número menor de pessoas se interessam por ele, isso é desapontador. Isso significaria que teríamos que discutir se devemos continuar fazendo isso. Apesar de que não diminuiria o orgulho que sentimos do álbum lançado.”

ENTÃO, ISTO É ALGO QUE VOCÊS FAZEM POR PRAZER PESSOAL OU PORQUE QUEREM FAZER SUCESSO?
GROHL: “Acho que é algo que fazemos por prazer. A parte boa é que podemos tocar em lugares como Hyde Park e fazer outros shows grandes. Após o [segundo álbum em 1997] The Colour and the Shape, nós ficamos livres de contratos de disco. Nós poderíamos ter parado naquela ocasião sem sofrer nenhum tipo de consequência. Nós olhamos um para o outro e perguntamos, ‘Você ainda quer fazer parte de uma banda?’ Todos nós dissemos sim, então, construímos um estúdio na Virgínia a fizemos o [terceiro álbum de 1999] There is Nothing Left to Loose sem um selo de gravadora. Para mim, isso foi um bom indicativo de que estávamos nessa pelas razões corretas. Mas, provavelmente vai chegar um momento em que nosso público vai acabar. E é provável que nós ainda estejamos indo para o Studio 606 para gravar música.”

EXISTE UMA IMPRESSÃO DE QUE O FOO FIGHTERS É UMA ÓTIMA BANDA PARA SE FAZER PARTE, QUE É MUITO DIVERTIDA. AINDA ASSIM, OCASIONALMENTE, FICAMOS SABENDO DE COISAS QUE SUGEREM O OPOSTO – A INSATISFAÇÃO QUE VOCÊ TEVE ANTES DO ONE BY ONE, OU HISTÓRIA DO DAVE FAZENDO TERAPIA…
GROHL: “Bem, nós somos apenas seres humanos. Todos nós temos nossos problemas. A razão de trabalharmos bem como uma banda é porque mantemos as coisas simples. Nós tentamos tocar essa organização sem perder a identidade de banda de garagem. Eu odeio ser pressionado por malucos e seguranças. Odeio ser assediado sala após sala como se eu fosse uma diva. Isso me irrita. Eu odeio.”
MENDEL: “Um pouco de humildade também é importante. O que nós todos estamos fazendo é tocar música de rock – não perder o foco disso é importante.”
GROHL: “Recentemente, nós apresentamos um show para um companhia de bioengenharia. Nós conhecemos o cara que inventou a insulina sintética. Ele salvou milhões de vidas ao reinventar esse medicamento. Esse é o tipo de cara que merece uma medalha – não um cara embriagado usando delineador e vendendo 10 milhões de discos. E daí? O que fazemos não muda o mundo.”

VOCÊ SE VÊ APENAS COMO ALGUÉM DO ENTRETENIMENTO?
GROHL:    “Sim, de uma forma. Sério, eu só quero mover as pessoas – seja com uma música que faça as pessoas jogarem a cabeça ou apenas ouvir. Não quero excluir ninguém. Acho que é importante que as pessoas saibam que elas vão se divertir para porra quando vierem nos assistir. Essa é uma das razões para eu estar nessa. É por isso que ainda estou fazendo isso.”

Fonte: FooArchive
Tradução: Stephanne Alves